sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Poeta mágico

   



O poeta iria se casar e pra tal compromisso, futuro sogro intimou:
- Chega de ficar por aí escrevendo palavras ao vento e declamando pra borboleta. Palavra não enche a barriga de ninguém. Arrume um trabalho de gente séria, de homem direito pra honrar a minha filha. E tenho o dito.
O pobre poeta ouviu o sermão do sogro e olhou para a noiva. Era realmente preciso arrumar um emprego.
Eis que passa pela cidadezinha o famoso 'Circo do Bolinha' e ao tentar transformar elefante em avestruz, o mágico tropeçou na tromba do bicho e quebrou a perna. Carros de som ecoavam pela cidade: 'Precisa-se de mágico com urgência'.
Poeta não pensou duas vezes; enfrentou fila e se candidatou a vaga. Pra espanto de todos, inclusive o dele, foi aceito.
Chegou a grande noite da estreia do circo. Crianças com suas pipocas, moças com saias de rendas, vendedores de cata-vento colorido. Na plateia estavam noiva, sogros e Bidu, o papagaio da família. O poeta já tinha tudo ensaiado: começava tirando um coelho da cartola, evoluía tirando um tatu e terminava com o crocodilo todo pintadinho, uma graça.
Cortinas abertas e poeta com a boca seca. Tambores rufaram, coração da noiva se acelerou e a varinha mágica do poeta entrou em ação.
Saiu um porquinho da índia. Risadas dos adultos. Palmas das crianças. Saiu um tamanduá bandeira. Palmas dos adultos. Susto das crianças.
O poeta mágico percebeu que se apontasse a varinha mais pro lado esquerdo que pro direito, o bicho saía maior. Ele colocou a cartola totalmente à sua esquerda, pediu a benção aos seus poetas prediletos e falou em alto e bom som:
-Abracadabra!
Puuum!
Silêncio dos adultos. Silêncio das crianças.
O que aconteceu depois entrou pra história da pequena Riachinho do Girino. De repente, milhares de palavras saíram da cartola do poeta. Palavras pequenas, grandes, gordas, magras, feias, bonitas, de todas as línguas, cores e formas. Palavras e mais palavras voaram pelos ares, se sentaram no colo da plateia, caíram na jaula do leão.
E num piscar de olhos o circo todo se transformou numa enorme... Biblioteca. Uma grande e linda biblioteca que como num passe de mágica foi toda lida. Adultos e crianças. Até bichos.
Com tantas palavras ao redor, o poeta não conseguiu falar nenhuma. Sua noiva correu para abraçá-lo.

A história dos dois era mesmo de livro.

ps.: foto da girafa Benedita pegando livros para ler no final de semana. (fonte)

3 comentários:

Marcelo Villela Gusmão disse...

Prezada Júlia,

Sou assessor de imprensa da poetisa mineira Elizabeth Gontijo e gostaria de lhe enviar o release do lançamento de seu novo livro. Por gentileza, entre em contato pelo e-mail marcelovillelagusmao@gmail.com

Forasteiro disse...

foda. gostei disso

Júlia Zuza disse...

Forasteiro, entre sem bater e leia à vontade. Bem-vindo.