quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Arrumar o baú para o ano novo

Lembranças de fumaça

A praça continua lá
Janelas espiam amores noturnos
Escuta a seresta!
Joaquim comunga na capela
Nas rodas de crochê notícias de outros tempos
Quando sai o casamento de Mariquinha?
Montanhas impávidas ao redor
Um cão dorme preguiçoso na soleira da porta
Me vê meio daquele canastra por favor?
Jardins cobertos de virgens margaridas
Banana e caqui na fruteira
O trem ainda apita
O leite ferve
A lenha acabou

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Festejos

Lá no São João

No meio do bate coxa, umbigo com umbigo, mijador com mijador
Vi Belarmina de rouge, salto alto, toda fina
Puxar prosa com Adamastor

Ele pitando cigarro de palha,
Sorriu sem dente, boca ventilada
E nasceu conversa cheia de querências

Belarmina virou uma pinga
Arrastou o homem pro salão e rodou igual pião
Adamastor entendeu o recado e não se fez de rogado
E foi a noite toda de xaxado e baião

Chegou Crispim de Donana e o rastapé parou
Jurema subiu a saia e de Jorge largou
Dionísia abriu o decote e batom passou
Belarmina sentiu o coração sambando no peito
E em Adamastor se agarrou

Crispim ordenou um bolero e sem lero-lero
Tirou Belarmina pra dançar
Adamastor não gostou da brincadeira
E sem demora tirou a peixeira

Moço, se eu te contar o que aconteceu depois cê vai acreditar?

Voou cadeira e garrafa, sopapo e rabo de arraia
Os dois embolados no chão e o bolero ecoando no sertão
Aí chegou Belarmina e sentou a paulada
O homem caiu desacordado e do salão foi retirado
Belarmina levantou Adamastor e estufou o peito pra dizer:

_É bom que todo mundo saiba que em homem meu só eu posso bater!


ps.: São João é um povoado pertinho de Itaobim no norte de Minas.
Lugar mais que especial que guardo ótimas imagens.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Fotos

Um amor de Polaroid

Numa gaveta qualquer, achei nossa fotografia
Na foto debruçada na janela do porta retrato, nós éramos felizes
Sim, estávamos tão felizes que nem sei se aqueles éramos nós
Eu era uma intrusa vendo minha própria imagem
                                     ...

Foram muitas palavras sem som na despedida
Não houve palavra suficiente pra te convencer
Você se desprendeu como um hiato
dizendo que só assim poderíamos ser um ditongo
                                     ...

No peito uma placa de contra-mão
Eu caminhava sem mim
Mas caminhava com você
Troquei meu presente por uma fatia do passado
                                    ...

A vida voltou para a ciranda
E num descuido,
sua presença virou lembrança
debruçada na fotografia