Uma homenagem aos amores não vividos e não acontecidos em sua plenitude
O fim de um quase amor
Era o fim. Era a sensação de terminar um namoro, mas sem ter vivido a apoteose, a hecatombe, a explosão do amor. Não era amor, senão haveria tristeza e lágrimas, ao menos uma lágrima rememorando o passado feliz com alguém. Havia um incômodo, uma dor de cabeça sonsa, um mal estar. Como uma ressaca vinda indigestamente de apenas um único copo de cerveja, ao invés de ser filha de várias e iguais garrafas. Esse copo era quase cheio, quase gelado e sorvido aos poucos, gole a gole. Alguns goles mais ansiosos que outros, uns mais lentos e amargos. Acabou algo que nem chegou direito a existir, uma espécie de velório do natimorto.
Ele também se deu conta disso, do fim antecipado, um fim sem jeito pelo acontecer das coisas. Não é preciso verbalizar algo que o coração nem sentiu, nem se deu conta. Passou quase batido pelas nossas artérias; ou melhor, nem bateu. Aquele seria o último e derradeiro encontro. A pergunta ecoava pelos cantos do salão: por quê? A receita e os ingredientes eram selecionados, a equipe de cozinha experiente, porém o prato saiu sem gosto. Jantamos calados e eu fiquei digerindo. Eu deveria ser o problema, a engrenagem enferrujada, o espinho do caule, a mancha, a ovelha negra, o estranho. Fiquei triste por tudo que não aconteceu sem saber direito onde debruçar minha incapacidade. Faltou tato, faltou tudo. Algumas palavras sumiram do nosso diálogo e nosso olhar insistia em não sem encontrar. Passei a mão na nuca, ele bocejou, olhei o relógio, ele molhou os lábios. Passaram cinco longos minutos e eu queria estar longe e pela voz dele, compartilhávamos a mesma sensação. Não houve outro alguém da minha parte, nenhuma paixão inesperada. Não, não houve. O bonde passou e em certas estações ele passa apenas uma vez com o mesmo condutor. Eu vejo casais e suas mãos dadas e lembro do encontro frouxo e úmido da mão dele com a minha. Vejo olhares cúmplices e sorrisos límpidos e lembro com certa vergonha da tentativa frustrada e ao mesmo tempo sincera que fizemos. Eu não sei bem o que aconteceu ou deixou de acontecer. Brindamos com o licor do fracasso nossa falta de conexão. Talvez amigos, parceiros. Mas não amantes. Amante é palavra tão bonita para ser ligada à traição. Trair é estar junto sem querer, sem desejar, sem viver. Nisso acredito que fomos fiéis e estivemos juntos por livre e espontâneo desejo. Mas o desejo era tão morno e cinza! Era a vontade com a preguiça, o desencanto com o querer, o carinho com o desprezo. Era um híbrido infértil, casamento de duas forças que se anulavam. Eu queria sair do carro sem ter que retribuir aquele olhar carregado de desânimo e certa culpa, olhar sabedor do fim. Eu queria ir embora. Foi a nossa ausência mútua que nos sepultou. É o fim. Despedimos com beijo na boca sem língua, claro. A porta do carro fechou, o sinal abriu e ele seguiu por alguma estrada em que provavelmente não irei passar. Vamos, vamos, vamos que ainda é cedo.
3 comentários:
não se trata de incapacidade, mas de linhas que apesar de se cruzarem não se encontram... tem a ver com o cheiro, isso tem!
Prima, amei!!!
Uma história quase minha. rs
Essas histórias que não acontecem direito matam a gente.
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